Estudantes usarem IA é como "atleta de maratona que faz treinos de carro"

  • 24/01/2026

Lembra-se do programa de televisão "Isto é Matemática"? Rogério Martins apresentava o formato, desempoeirando, com um registo simpático e forma ligeira de comunicar, a disciplina que a muitos ainda faz doer a barriga. Este sábado, dia 24 de janeiro, assinala-se o Dia Internacional de Educação e, a esse propósito, conversámos com o também professor de matemática da faculdade NOVA FCT.

 

Nesta entrevista, Rogério Martins aborda os desafios do ensino em Portugal, nomeadamente no que à matemática diz respeito, discorrendo sobre abordagens inovadoras de ensino que podem motivar um maior envolvimento dos alunos, bem como sobre o papel da Inteligência Artificial (IA) no ensino universitário.

Acerca deste último ponto, o docente do ensino superior diz que estamos numa fase de “novos-ricos” no que toca ao uso da IA, o que pode ter "consequências catastóficas", comparando-o, no caso dos estudantes, a uma "situação de um atleta que está a treinar para fazer uma maratona, mas começa a fazer os treinos de carro em vez de correr".

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Atualmente, quais são os maiores desafios que encontra no ensino em Portugal, em particular de matemática?
 
Creio que um dos maiores desafios que se coloca aos estudantes de hoje é a gestão do seu tempo e atenção. As redes sociais, o streaming, os videojogos e outras plataformas digitais são sorvedouros da nossa atenção e consomem uma parte considerável do nosso tempo. Não deve ser fácil para um estudante encontrar um equilíbrio entre todas estas solicitações e o estudo.

Costumo dizer aos meus alunos que ser estudante é um trabalho a tempo inteiro, mas com uma particularidade: é um emprego com isenção de horário, são eles que têm de gerir o seu próprio horário de trabalho. E isso é extremamente difícil nos dias de hoje. Hoje em dia, para ser um bom estudante é fundamental ter uma grande capacidade de organização e gestão do tempo.

Ainda que vamos aperfeiçoando as abordagens pedagógicas e os materiais disponíveis para os nossos alunos, é importante reconhecer que há uma dificuldade estrutural na própria natureza da matemática

Hoje em dia, a matemática ainda é um quebra-cabeças para muitos alunos (e não só). Porquê? Deveria apostar-se numa abordagem diferente no ensino desta disciplina? Se sim, de que tipo?
 
Sim, a matemática continua a ser um quebra-cabeças para muitos alunos, na verdade, creio que sempre será. Trata-se de uma disciplina intrinsecamente abstrata. Claro que podemos ligar a matemática a problemas reais que sejam mais significativos para os alunos, mas no final o cerne da matemática é a abstração.

Embora a abstração torne a matemática uma ferramenta poderosa nas mais variadas áreas do conhecimento, o nosso cérebro não foi feito para pensar de forma abstrata. O nosso cérebro foi criado para gerir o mundo que nos rodeia e, muito em particular, para socializar.

Ainda que vamos aperfeiçoando as abordagens pedagógicas e os materiais disponíveis para os nossos alunos, é importante reconhecer que há uma dificuldade estrutural na própria natureza da disciplina, que não desaparece com mudanças de método.

É professor universitário. O que sente quando os alunos ingressam na universidade? Estão bem preparados ou falta-lhes algum tipo de base de aprendizagem?
 
Devo dizer que sou um otimista crónico, mas sinto que os alunos que chegam às universidades estão, em geral, mais bem preparados do que antes. Esta minha perceção talvez também seja influenciada pelo facto de ser professor na NOVA FCT, uma escola de engenharia onde as médias de entrada são particularmente altas.

Os alunos têm cada vez mais acesso a tecnologia e conteúdos dentro e fora do contexto escolar. O problema desta abundância de informação e tecnologia é que, quando bem usada, melhora muito o processo de ensino e aprendizagem, mas quando mal usada, pode ser catastrófico.
 
É bem possível que isto tenha como consequência que os melhores alunos de hoje chegam mais bem preparados do que no passado, enquanto os alunos com mais dificuldades tendem a ficar menos bem preparados do que antes. Como o meu contacto é sobretudo com os primeiros, isso acaba por influenciar a minha perceção global.

O ensino, nomeadamente da matemática, tem acompanhado a evolução dos tempos ou ficou estagnado? 
 
A matemática que se ensina hoje não é muito diferente da matemática que se ensinava há 50 anos, os conteúdos que faz sentido ensinar não mudaram assim tanto. Ainda assim, estou convencido de que o ensino tem acompanhado a evolução dos tempos. A forma como hoje se ensina matemática não é a mesma de há 30 anos, quando eu próprio era aluno.

Existem atualmente técnicas pedagógicas muito mais apuradas, pensadas para motivar os alunos. O recurso a vídeos e a novas ferramentas pedagógicas, muitas delas digitais, tornou-se comum. Não tenho dúvidas de que, nesse aspeto, o ensino da matemática melhorou.

Neste momento, usamos e abusamos da IA, somos uma espécie de “novos-ricos” nesse sentido, o que pode ter consequências desastrosas Como é que o ensino se tem adaptado às novas gerações? 
 
Hoje existem imensos recursos disponíveis. Eu próprio estou envolvido na criação de vídeos pedagógicos, em colaboração com a produção de um manual da Raiz Editora. Este tipo de materiais, muitos deles multimédia, tem vindo a crescer e a melhorar de forma significativa.

Além dos recursos especificamente criados para o ensino formal, existe uma enorme quantidade de conteúdos disponíveis online. Hoje temos canais, portugueses e estrangeiros, de divulgação científica de excelente qualidade. As novas gerações leem menos, mas, em geral, têm muito mais acesso a informação em vídeo.  Nunca foi tão fácil aceder a informação e a ferramentas de aprendizagem. Isso é claramente positivo, sobretudo se conseguirmos ensinar os nossos alunos a filtrar e a escolher os melhores materiais e fontes.
 
A inteligência artificial é hoje uma ferramenta para muitas pessoas, inclusive estudantes. Qual é o papel que a IA tem no ensino? De que forma se pode conviver com esta nova realidade, sem descurar a importância do raciocínio e do pensamento crítico?
 
Hoje, a IA consegue resolver praticamente qualquer problema de matemática, mesmo de nível universitário, com grande eficácia. É uma ferramenta nova, não podemos ignorá-la e é inevitável que venha a ter um papel no ensino. Qual deve ser exatamente esse papel? Ainda não sabemos.

Estamos neste momento numa fase de fascínio, o desejável é que passemos de seguida a uma fase de integração e adaptação. Provavelmente, em muitos contextos, vamos ter de limitar o uso da inteligência artificial no processo de aprendizagem, noutros casos vamos integrar a IA no processo, de forma a torná-lo mais eficiente.

Costumo fazer a analogia com o que aconteceu, por exemplo, com a calculadora. Há situações onde faz sentido usar a calculadora no ensino, mas há outras onde o uso deve ser limitado, como quando estamos a aprender a multiplicar e a dividir. Caso contrário não desenvolvemos as competências fundamentais.

Neste momento, usamos e abusamos da IA, somos uma espécie de “novos-ricos” nesse sentido, o que pode ter consequências desastrosas. Em muitas situações, o uso de IA por um estudante é semelhante à situação de um atleta que está a treinar para fazer uma maratona, mas começa a fazer os treinos de carro em vez de correr. Se queremos que os alunos desenvolvam capacidades de raciocínio, escrita, síntese ou pesquisa, faz sentido limitar o recurso a ferramentas que fazem esse trabalho de forma automática.

Por outro lado, tenho a certeza de que o uso de IA no momento e da forma certa pode ajudar muito no processo de ensino, por exemplo, na criação de conteúdos de trabalho melhores e mais diversificados.

Leia Também: Alterações no acesso ao ensino superior devem ser divulgadas "quanto antes"

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/pais/2924806/estudantes-usarem-ia-e-como-atleta-de-maratona-que-faz-treinos-de-carro#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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