"Esperança é um dos sentimentos mais presentes nas minhas músicas"

  • 23/01/2026

No próximo dia 8 de fevereiro, o Coliseu Porto abre as portas para receber Rodrigo Leão e o seu mais recente trabalho, "O Rapaz da Montanha". Editado a 25 de Abril de 2025, este álbum não é apenas mais um registo na vasta discografia do compositor: é o "fechar de um ciclo", que mergulha profundamente nas raízes da música de intervenção e na identidade nacional. Não fosse um disco de Abril, que bebe do universo musical da década de 1970.

 

Neste espetáculo, que coincide curiosamente com o dia em que Portugal elege o seu novo Presidente da República, o músico faz-se acompanhar por cúmplices de longa data — como Gabriel Gomes e José Peixoto — e pela sua própria família, num ambiente que mistura o intimismo do lar com a força coletiva do coro, em que ele próprio participa, e das percussões tradicionais.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Rodrigo Leão fala sobre a inquietação que o mantém criativo após décadas de carreira, a importância de cantar em português, e de como uma frase da mulher, Ana Carolina Costa, deu origem a todo um disco.

Apresenta no próximo dia 8 de fevereiro o álbum "O Rapaz da Montanha" no Coliseu do Porto. O que podem esperar os espectadores deste concerto?

É um concerto de apresentação deste último trabalho, que saiu no dia 25 de Abril do ano passado, e que apresentámos no Coliseu de Lisboa no dia 19 de dezembro. Vamos apresentar grande parte deste "O Rapaz da Montanha", mas também vamos tocar temas de outros trabalhos. Será inteiramente cantado em português, uma vez que, como tenho dito, este é o disco mais português que fiz na minha carreira. Será também um concerto onde temos o privilégio de ter alguns dos convidados que participaram neste trabalho, como o José Peixoto na guitarra, o Gabriel Gomes no acordeão e o Francisco Palma, filho do Jorge Palma, a cantar um tema que se chama "Andava eu".

Basicamente, será semelhante ao que temos vindo a fazer ao longo destes últimos oito, nove meses. Aliás, diria até que é quase o fechar de um ciclo que começou com a banda sonora para um documentário que se chama "Portugal, um retrato social", do professor António Barreto e da realizadora Joana Pontes. A partir do qual - e isso já foi talvez há uns 16, 17 anos - começámos a fazer um espetáculo que intitulámos "Os Portugueses".

Que influências tem "O Rapaz da Montanha"?

Este "Rapaz da Montanha", que foi composto ao longo do ano em que celebrávamos os 50 anos da Liberdade, acaba por ter influências de parte da música que eu ouvia na minha adolescência, de compositores como José Mário Branco, Zeca Afonso, do universo musical desse tempo, da música que se fazia em Portugal nessa altura. E tem a particularidade de ter sido composto ao longo desse ano, durante o qual tivemos também a oportunidade de fazer alguns concertos e onde íamos tocando também parte de alguns destes temas.

Pela primeira vez, canto também em cinco ou seis temas, na parte do coro e isso, ao vivo, dá, penso eu, uma força maior a estas canções

E, por coincidência, o concerto vai agora realizar-se no dia em que Portugal vai conhecer o seu novo Presidente da República. Acha que isso é um bom presságio?

Exatamente [risos]. Acho que é apenas uma coincidência. Calhou. Claro que já esperávamos que existisse uma segunda volta, mas não sabia que seria no dia 8 de fevereiro... esperamos que corra tudo pelo melhor [risos].

Uma parte das músicas deste álbum é cantada numa espécie de coro. Qual a importância deste facto para "O Rapaz da Montanha"?

Sim, sim. É de facto uma das coisas mais importantes neste trabalho. Há alguns temas em que cantamos todos. Pela primeira vez, canto também em cinco ou seis temas, na parte do coro e isso, ao vivo, dá, penso eu, uma força maior a estas canções. Não só o coro, claro, como o facto de tocarmos quase todos algumas percussões, como o adufe, o bombo. E isso é uma das influências que está muito presente neste trabalho. Esse lado um pouco diferente dos arranjos que costumo fazer nos meus discos. Sei que a minha música tem influências muito diferentes, que vão desde a música clássica ao tango, à música britânica, mas penso que o meu público já está um pouco habituado àquilo que vou fazendo. A algumas variações nos trabalhos que vou editando.

A certa altura revelou que este álbum foi inspirado na frase "Se Deus perdoa quem engana, quem é que perdoa a Deus", da sua mulher e letrista Ana Carolina Costa. Como é que isso aconteceu?

A Ana Carolina costuma fazer com alguma frequência letras para músicas minhas. É uma das pessoas que está mais perto daquilo que faço e que vou mostrando. Há cerca de uns três anos, essa frase surgiu numa música que compusemos juntos, numa casa que temos perto de Avis, no Alentejo. Acho que nunca me tinha acontecido mas, no dia seguinte, acordei e pensei: posso fazer um disco a partir deste tema. Aquilo ficou na minha cabeça. Na altura, estava a fazer um disco com uma das nossas filhas, a Rosa, que se chama "Piano para Piano", sabia que não tinha hipótese de começar logo a trabalhar nessas ideias. Mas a verdade é que, durante um ou dois anos, fui guardando numa pasta pequenas ideias que ia tendo. E, portanto, era um dos projetos que tinha a certeza de que queria tentar debruçar-me sobre. E assim aconteceu.

[Esperança] é um dos sentimentos que está mais presente em muitas das músicas e das ideias que vou tendo  

"O Rapaz da Montanha" teve, então, como base a música que acabou por se chamar "Cadeira Preta". De que fala esta canção?

É verdade. Nunca pensei que a música ficasse com este título. Mas a verdade é que nos fomos habituando ao nome e acabou por ficar "Cadeira Preta". A canção aborda temas como a liberdade das mulheres. Muitas coisas que conseguimos melhorar nestes últimos 50 anos. Outras que parecem que estão quase na mesma. É muito sobre os portugueses, sobre nós próprios.

"O Rapaz da Montanha" -  e os espetáculos - conta com a participação de vários músicos e convidados especiais, entre os quais amigos próximos, mulher e filhos, como, aliás já tinha acontecido. São o seu porto de abrigo? É desta forma que se sente mais ancorado?

Sou daquelas pessoas que sempre gostou de mostrar as ideias que vai encontrando logo desde o início. Apesar de muitas ficarem pelo caminho. Portanto, as pessoas a quem mostro o meu trabalho são as pessoas que estão mais perto de mim, amigos mais chegados, que acabam por trabalhar comigo, nos arranjos e na produção destes trabalhos. É o caso do Pedro Oliveira, que é meu amigo desde os 6, 7 anos. O João Eleutério, o Paulo Abelho, o Tiago Lopes. Portanto, há muita gente envolvida neste processo. Mas, a verdade, é que sinto-me muito confortável pelo facto de ter estas pessoas perto de mim. De alguma forma elas ajudam-me a concretizar as ideias que vou tendo. E é por isso que os meus trabalhos costumam ser produzidos e criados num ambiente muito familiar, mais intimista.

Este é também é um disco de emoções profundas, de memória viva e de esperança persistente. Como é que cultiva esta esperança ao longo dos anos?

[Risos] Acho que sou uma pessoa otimista. Apesar de ter momentos mais pessimistas e achar que muitas coisas não estão bem, acho que a esperança é muito importante no nosso dia a dia, nas nossas vidas e, obviamente, depois naquilo que queremos fazer, neste caso, na música. Acho que é um dos sentimentos que está mais presente em muitas das músicas e das ideias que vou tendo. 

Para mim, é muito importante saber que não estou preso a um género musical específico. Saber que posso saltar e cruzar universos musicais muito diferentes

Após mais de 30 décadas a solo, surpreendeu mais uma vez os fãs com um "Rapaz da Montanha" bem inquieto. Como é que alimenta esta inquietação? E a criatividade?

O facto de ter influências muito diferentes nas músicas que vou fazendo permite-me trabalhar com pessoas que pertencem a áreas musicais muito diferentes, como é o caso, estou a lembrar-me agora, do nosso querido Ryuichi Sakamoto, da Beth Gibbons, do cantor argentino Daniel Melingo, da Adriana Calcanhoto, da Rosa Passos. A música é um universo infinito de possibilidades de cruzar influências diferentes. Para mim, é muito importante saber que não estou preso a um género musical específico. Saber que posso saltar e cruzar universos musicais muito diferentes.

E tem alguma música preferida neste álbum? Alguma que gostaria de destacar?

Há um tema em particular de que eu gosto muito, que é o "Guarda-te". "A Cadeira Preta", que deu origem a estas canções todas também é muito especial. Para mim, há aqui uma unidade neste disco pelo facto de as canções também serem todas em português, apesar de haver alguns temas instrumentais que acho que também são muito importantes. Mas, gosto particularmente deste tema, o "Guarda-te".

Porquê?

Não sei, talvez tenha sido um tema inesperado, um dos últimos temas em que trabalhámos. É um tema que tem quase seis minutos e que tocámos ao vivo. É cantado pela Ana Vieira, que acho que interpreta muito bem e sabe pôr-se dentro da personagem. E ela estará também no Porto.

Leia Também: Capitão Fausto atuam a 24 de janeiro na MEO Arena. "Nervosinho saudável"

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/cultura/2923581/esperanca-e-um-dos-sentimentos-mais-presentes-nas-minhas-musicas#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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